quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Em um dia fatídico de trabalho



Fonte: http://www.miranda.com.br/_resources/files/_modules/files/files_1178_20130111104013b4a7.jpg



“Em um dia fatídico de trabalho, onde tudo parecia estar no lugar, aquele momento pareceu eterno...”.

Em mais um dia fixado na tela do computador, trabalhando freneticamente em mais um projeto que parecia não vingar apesar do meu esforço, e principalmente pelo nível de complexidade das tarefas.

Desviei o olhar rapidamente para olhar em volta, e a vi. Ela escrevia devagar no teclado dela na mesa em frente a minha. Ela não trabalhava ali, e apesar disso ela demonstrou estar ligeiramente acostumada ao lugar. Com um lindo cabelo liso escuro, um óculos retangular com a armação vinho, um rosto pequeno, olhos castanhos, seus lábios eram rosados, suas mãos pequenas com dedos finos delicados.

Fiquei alguns segundos parado no ar olhando pra ela, até perceber que ela me olhava de volta, quando percebi, imediatamente desviei o olhar para o meu teclado tentando disfarçar já meio sem graça. Demorei mais alguns segundos pra olhar novamente pra ela, e assim perceber um leve sorriso no lado esquerdo de tua boca, provavelmente ela percebeu como fiquei sem graça desviando o olhar dela.

Nos minutos seguintes fiquei preso no espaço e tempo olhando pra ela e pra minha tela, tentando adivinhar o que ela fazia ali. De modo estranho meus colegas de trabalho não estranharam a presença dela ali, o que me deixou ainda mais intrigado.

Levantei pra pegar um café na copa passando pela mesa dela, e foi quando reparei em um arquivo em sua mesa. Olhando rapidamente pude ver a frase “Implementação de processos...” em uma das linhas.  Voltei pra minha mesa e antes de me sentar, tomei coragem e puxei assunto com ela, perguntando se ela era da empresa que estava implementando os processos de melhoria na empresa. Ainda sentada ela virou o rosto sorridente confirmando que sim. Para continuar a conversa, perguntei se era o primeiro dia dela na empresa. Ela expressou uma leve risada tímida, e sem entender nada daquela situação passei a olhar em volta já um pouco mais tímido que antes. Em resposta a minha pergunta, alguns segundos depois ele respondeu;

– Estou aqui há alguns dias, e tenho trabalhado na sua frente desde então. Essa é a primeira vez que você fala comigo. Seu gerente me pediu que sentasse aqui, pois me indicaram que você poderia sanar minhas dúvidas quanto aos processos atuais da empresa.

Já extremamente sem graça por entender o motivo da piada anterior, comecei a me desculpar com ela pela falta de atenção. Ela riu novamente confirmando que não havia problema. Por algum motivo estranho já haviam falado pra ela que eu era um pouco distraído, pra não dizer avoado.

Continuando a conversa, chamei-a na minha mesa pra mostrar algumas documentações usadas no dia a dia. Expliquei de modo geral o funcionamento do fluxo de trabalho, e apesar do meu jeito meio desengonçado de explicar, a percebi bem atenta as minhas explicações. Aparentemente, minhas explanações não eram tão chatas quanto imaginava, pois ela só tirava olhos de mim quando precisava marcar alguma referencia de arquivo no bloco de notas que ela tinha nas mãos.

Quando terminei de explicar os processos iniciais, ela se sentou no lado esquerdo da minha mesa, e foi quando me peguei olhando para o corpo dela. Ela vestia uma blusa social escura de manga longa e uma saia bordô um pouco acima dos joelhos.

Meu rosto ficou imediatamente corado quando ao final da minha fitada vi que ela estava olhando diretamente pra mim. Procurando imediatamente por um assunto que ajudasse a mudar o rumo da conversa, olhei para o relógio e percebi que já estava passando do meu horário de almoço convencional. Juntei as mãos pra disfarçar o suor nelas e perguntei se ela já havia almoçado. Ela balançou a cabeça em negação e fomos juntos ao refeitório da empresa.

O almoço foi rápido e muito interessante.  Sentindo-me um pouco mais a vontade, conversei com ela sobre o trabalho e a vida dela. Ela terminara a faculdade de Administração no ano anterior, e estava fazendo a pós-graduação. Não posso deixar de admitir que fiquei um pouco intimidado por ainda estar terminando minha primeira faculdade, e nossa diferença de idade ser pequena, mas prosseguimos com a conversa mesmo assim. Durante a sobremesa, rimos um pouco das histórias que contei nas poucas visitas que tive nos clientes da empresa e saímos sorrindo do lugar, indo cada uma pra sua mesa.

            Nos dias seguintes, seguimos mais ou menos a mesma rotina, conversávamos um pouco de manhã e almoçávamos juntos. Logo em seguida, me afundava nos projetos e só nos falávamos na saída dela que era um pouco antes da minha. Ela sempre me surpreendia quando vinha me cumprimentar com um beijo no rosto pra se despedir.

Em um dos almoços, ela me falou que a estratégia dos processos já estava quase pronta, e que em mais alguns dias ela não precisaria mais ter de ir à empresa. Esta última informação me deixou chateado a princípio, pois já estava me habituando a companhia dela.

No último dia dela na empresa, nós almoçamos e ficamos um pouco mais calados que o normal. Fiquei o dia pensando nela e em como sentiria a falta dela, mas sem entender o real significado do sentimento. Ela também estava diferente naquele dia, subitamente me olhando e desviando o olhar sempre que nossos olhares se encontravam.

No final do dia esperei ansioso pela despedida dela, o que acabou não ocorrendo no horário normal. Ela saia geralmente as 17hs e eu as 18h30min. Próximo das seis e meia, já estava começando a arrumar minhas coisas, quando a vi se levantar e vir na direção da minha mesa. O escritório já estava quase vazio por conta do horário, e ela vinha de cabeça baixa mordiscando o lado inferior direito do lábio até chegar a minha mesa. Levantei depressa para cumprimentá-la pensando rápido em algo para dizer, mas nada me veio a mente.

Já na minha frente, ela levantou o rosto fixando seus olhos nos meus, fiquei mudo no momento, e ela de repente se aproximou lentamente, imaginei que ela queria me abraçar e então me lancei tão lentamente quanto ela em teus braços. Ela parou alguns centímetros segurando meu rosto com uma de suas mãos, parei por um instante e então ambos fechamos sutilmente os olhos de forma sincronizada, deste momento em diante nossos lábios se tocaram graciosa e majestosamente, como no encontro do sol com horizonte, nos beijamos por um tempo incalculável e infindável.

Quando nosso beijo cessou, olhei fixamente para os olhos dela e ainda bem próximo dela falei baixinho – Vamos?

Com um pequeno sorriso no rosto ela me puxou pelo braço em direção à saída. Fomos andando até a minha casa que era bem próxima do trabalho, e ali ficamos o resto do dia.

Já em casa nos beijamos e nos acariciamos.  Foi até engraçado, pois mesmo sem proferir uma palavra se quer, nosso entendimento era mútuo. Coloquei uma coletânea de músicas antigas para tocar e depois de muito esforço conseguimos parar com os beijos e abraços para jantarmos o que tivesse em casa.

Deitamos juntos um de frente pro outro e ficamos horas trocando carinhos e falando sobre nossas famílias. Falei um pouco mais das minhas duas filhas peraltas, e ela falou dos sobrinhos dela que tanto estimava. Sorrisos e gargalhadas acompanharam a noite a fora até cairmos no manto da noite, dormindo numa paz e extasiante calmaria. Ela adormeceu primeiro segurando forte minha mão na altura do seu rosto. Acariciei seu cabelo por alguns instantes até perceber um sorriso confortável em seu rosto. Parei por um instante e ela puxou ainda mais minha mão ficando apoiada nela como uma criança apoiada em seu bichinho de pelúcia. Uma alegria me dominou e sem parar de sorrir, me permiti cair no sono da noite.

            No dia seguinte, logo cedo acordei e ela já não estava mais lá, um pouco triste corri pra atender meu telefone que tocava imaginando que fosse ela, mas me frustrei vendo que era a mãe das minhas filhas avisando que já estava chegando pra levar as meninas pra ficarem comigo. Confirmei que tudo bem e então me apressei pra ajeitar a casa o máximo possível antes de elas chegarem.

Foi então que a campainha tocou e para minha surpresa, era ela! A mulher que passou a noite comigo e por todo aquele momento me fez o homem mais feliz do mundo. Ela segurava uma sacola do mercado do bairro e estava com um sorriso encantador no rosto. Se desculpou por sair sem avisar, mas não quis me acordar, dizia ela que eu “dormia tão bonitinho encolhido...”.

Ela confessou que quase não voltou, pois não sabia o que eu achava da noite anterior. Olhei pra ela e falei pausadamente:

– Foi a melhor noite da minha vida!

Ela ficou levemente sem graça e me abraçou dizendo baixinho – Para mim também!

Alguns minutos depois, ainda arrumando a mesa para o café, a campainha tocou novamente e dessa vez eram as minhas pentelhinhas, que logo que abri a porta pularam no meu colo e me abraçaram quase me jogando pra trás. A mãe delas vinha logo atrás me entregando as coisas delas.

A mais novinha, sem pudor e nem vergonha logo questionou bem alto:

- Quem é ela pai?

Respondi rápido que era uma amiga, e em seguida ela foi até a mesa cumprimentá-la. Imediatamente a mãe delas colocou a cabeça para dentro tentando ver quem era. Ela não falou nada, mas ficou claro o descontentamento dela. As meninas se despediram e ela saiu depressa, sem dizer nada.

Sentamos-nos a mesa para o café, e de maneira curiosa as meninas não estranharam a presença de outra mulher ali, a trataram como de fosse uma amiga antiga e ainda devoraram os doces da mesa. Fiquei contente em ver a interação entre elas, pois aquilo seria de estrema importância para o que quer que fosse acontecer entre nós dali pra frente.

Depois do café as meninas foram brincar no quarto e me sentei na sala com ela para conversarmos. Pedi desculpas pela reação da mãe das meninas, e em resposta ela balançou a cabeça confirmando que estava tudo bem.

Foi então que falei:

- Nossos momentos juntos foram incríveis, desde nossas conversas, a noite maravilhosa que tivemos... Mas infelizmente não vou conseguir me dedicar inteiramente a nós dois, por mais que eu deseje. Minha vida se divide muito as minhas filhas e em muitas vezes eu preciso ficar e lidar com a mãe delas, mesmo isso me desagradando. E além do mais, tenho a minha mãe aquém eu sempre me esforço pra ajudar na medida do possível. Não posso e não vou pedir pra você assumir essas responsabilidades por mim, pois isso já não é fácil pra mim. Olhando pra ti posso ver sentimentos que eu mais que almejo, mas já passei por isso e não foi uma experiência muito interessante.

Terminei minhas argumentações e esperei pela reação dela,  de certa forma já conformado com o pior. Afinal de contas, como pode uma mulher solteira e bem resolvida, querer se envolver em um caso cheio de percalços e solavancos onde tantas pessoas estão envolvidas. Na situação dela, acho que também não me agradaria esse tipo de responsabilidade sem ter se sequer uma garantia que tudo daria certo.

Ela me olhou calma e serena e disse:

- Nossa noite foi ótima, mas como você mesmo disse, não é justo que eu assuma essas responsabilidades que você mencionou. Contudo, há um pequeno porém, acho que te amo, e quero muito ficar com você, e com tudo o que estiver ligado a ti. Suas filhas são parte de você, e por isso também as amarei. Sua mãe, sua família, seus amigos, todos eles fazem parte de quem você é, e simplesmente por isso, também os amarei. Por favor, não tente me afastar de ti por pensar que não é justo. Se você não sente o mesmo por mim, este sim deve ser motivo...

Sem deixá-la terminar de falar, a abracei forte e ali no pé do ouvido dela sussurrei - Também te amo.

Antes de me afastar, dei-lhe um beijo tímido, e com um sorriso enorme no rosto fui dar bronca nas meninas por estarem brigando pela boneca que falava algumas besteiras de bebe.


Ela também sorridente voltou a tomar seu café, e a me observar brincando com elas pra evitar outra briga.